Reprodução das tartarugas marinhas: as 7 espécies comparadas

Reprodução das tartarugas marinhas: como as sete espécies diferem em época de desova, tamanho de ninhada, intervalo entre temporadas e praias de nidificação.
natureza
biologia
vida marinha
tartarugas marinhas
Autor

Pedro Nakashima

Data de Publicação

7 de setembro de 2026

Palavras-chave

reprodução das tartarugas marinhas, espécies de tartaruga marinha, desova, arribada, tartaruga-de-couro, tartaruga-cabeçuda, Projeto TAMAR

Publicado em 7 de setembro de 2026, às 10:32, por Pedro Nakashima

A reprodução das tartarugas marinhas segue o mesmo roteiro em todas as espécies — acasalamento na água, fêmea que sobe à praia, ninho cavado na areia, incubação sem cuidado parental e filhotes que correm sozinhos para o mar —, mas os números por trás desse roteiro variam muito. Uma tartaruga-de-couro põe mais de 500 ovos numa temporada e some por três anos; uma tartaruga-australiana põe cerca de 50 e nunca sai da plataforma continental. Este guia compara como se reproduzem as sete espécies de tartaruga marinha: quando desovam, quantos ovos botam, de quanto em quanto tempo voltam e onde fazem ninho.

O que é igual nas sete espécies

Antes das diferenças, vale fixar o que não muda. Todas têm determinação sexual pela temperatura: não há cromossomo sexual, e a proporção de machos e fêmeas do ninho é definida pelo calor da areia durante o terço médio da incubação, com ponto de equilíbrio perto de 29 °C. Todas praticam filopatria natal — as fêmeas voltam para desovar na praia onde nasceram, ou muito perto dela. Todas desovam de noite, com a exceção das arribadas diurnas das tartarugas-oliva e de-Kemp. E em nenhuma há qualquer cuidado com ovos ou filhotes: a fêmea cobre o ninho, disfarça o local e volta ao mar.

E em nenhuma há cuidado com ovos ou filhotes: ao contrário de mamíferos marinhos de vida longa como os golfinhos, que investem anos em cada cria, a tartaruga aposta tudo no número — muitos ovos, nenhuma proteção. A partir daí, cada espécie tem o seu calendário e a sua aritmética.

Espécie por espécie

Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta)

Amadurece por volta dos 20 a 30 anos. Cada fêmea faz de 3 a 5 ninhos por temporada, com cerca de 100 a 125 ovos por ninho, e só volta a se reproduzir a cada 2 ou 3 anos. A incubação dura de 50 a 60 dias. Nidifica sozinha, em praias temperadas e subtropicais — é a espécie que mais desova no Brasil, sobretudo na Bahia, no Espírito Santo, em Sergipe e no norte do Rio de Janeiro.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas)

É a que amadurece mais tarde: 25 a 35 anos, às vezes mais. Põe de 3 a 5 ninhos por temporada, com cerca de 110 a 115 ovos cada, e tem o maior intervalo entre temporadas — de 2 a 5 anos. Faz as migrações reprodutivas mais longas: populações que se alimentam no litoral brasileiro cruzam cerca de 2.000 km até a Ilha de Ascensão para desovar. No Brasil, a desova concentra-se na Ilha da Trindade; ao longo da costa, a espécie aparece sobretudo se alimentando.

Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata)

Amadurece entre 20 e 35 anos. Tem uma das maiores ninhadas — frequentemente acima de 130 ovos, podendo passar de 160 em algumas populações —, com 3 a 5 ninhos por temporada e retorno a cada 2 ou 3 anos. Prefere praias tropicais associadas a recifes e costuma pôr o ninho junto à vegetação. No Brasil, desova principalmente na Bahia, no Rio Grande do Norte e em Sergipe.

Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea)

A mais abundante do mundo e uma das mais precoces: reproduz-se por volta dos 12 a 18 anos. Faz de 1 a 3 ninhos por temporada, com cerca de 100 a 110 ovos, e incubação curta, de 45 a 55 dias. É uma das duas espécies de arribada: em poucos lugares — como Odisha, na Índia, e Ostional, na Costa Rica — milhares de fêmeas sobem à mesma praia em poucos dias; no resto da distribuição, incluindo Sergipe e o norte da Bahia, a desova é solitária.

Tartaruga-de-Kemp (Lepidochelys kempii)

A menor e a mais ameaçada. É praticamente endêmica do Golfo do México, com a desova concentrada numa única praia — Rancho Nuevo, no México — em arribadas diurnas. Amadurece cedo, entre 10 e 15 anos, põe cerca de 100 ovos por ninho e tem o ciclo mais acelerado das sete: remigração de 1 a 2 anos, contra os 2 a 4 anos das demais. Não ocorre no Brasil.

Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea)

A maior tartaruga viva, com mais de 600 kg, e a única sem casco ósseo. A ninhada tem cerca de 80 ovos com gema mais dezenas de ovos menores sem gema, que não geram filhotes. É a recordista em número de ninhos por temporada — de 5 a 7 —, com intervalos de apenas 9 a 10 dias entre eles, e incubação de 60 a 65 dias. Nidifica em praias tropicais de areia funda com acesso a água profunda. No Brasil, a única área regular de desova fica no norte do Espírito Santo, com uma população pequena.

Tartaruga-australiana (Natator depressus)

Endêmica da plataforma continental da Austrália, onde nidifica exclusivamente. Tem a menor ninhada — cerca de 50 ovos —, mas põe ovos e filhotes maiores que os das outras espécies. É a única sem a fase oceânica dos “anos perdidos”: os filhotes permanecem em águas rasas e turvas perto da costa. Não ocorre no Brasil.

As diferenças num quadro

Espécie Maturidade (anos) Ovos por ninho Ninhos por temporada Intervalo entre temporadas
Cabeçuda 20–30 ~100–125 3–5 2–3 anos
Verde 25–35+ ~110–115 3–5 2–5 anos
De-pente 20–35 ~130–160 3–5 2–3 anos
Oliva 12–18 ~100–110 1–3 1–2 anos
De-Kemp 10–15 ~100 2–3 1–2 anos
De-couro ~9–15 ~80 (+ sem gema) 5–7 2–3 anos
Australiana ~15–20 ~50 2–3 2–3 anos

A reprodução das tartarugas marinhas no Brasil

O litoral brasileiro abriga cinco das sete espécies — cabeçuda, verde, de-pente, oliva e de-couro —, e é um dos poucos pontos do Atlântico Sul onde a cabeçuda ainda desova em número relevante. O monitoramento dessas praias é feito desde 1980 pelo Projeto TAMAR, que já manejou centenas de milhares de ninhos ao longo da costa do Nordeste e do Sudeste. As tartarugas-de-Kemp e as australianas não aparecem por aqui: a primeira é restrita ao Atlântico noroeste, a segunda, à Austrália, conforme as fichas de cada espécie da NOAA Fisheries.

Perguntas frequentes

Quantas espécies de tartaruga marinha existem?

Sete: cabeçuda, verde, de-pente, oliva, de-Kemp, de-couro e australiana. Há discussão taxonômica sobre uma possível oitava, a tartaruga-preta do Pacífico oriental, hoje tratada como população da tartaruga-verde.

Qual espécie põe mais ovos por temporada?

A tartaruga-de-couro. Embora a ninhada média seja menor (~80 ovos com gema), ela faz de 5 a 7 ninhos por temporada, somando mais de 500 ovos.

Qual põe menos?

A tartaruga-australiana, com cerca de 50 ovos por ninho — em compensação, os ovos e os filhotes são maiores.

O que é arribada?

A desova sincronizada em massa das tartarugas-oliva e de-Kemp: milhares de fêmeas sobem à mesma praia em poucos dias, muitas vezes de dia. A hipótese principal é a saturação de predadores.

Todas as espécies ocorrem no Brasil?

Não. Cinco desovam ou se alimentam no litoral brasileiro; a tartaruga-de-Kemp e a australiana não ocorrem por aqui.

Conclusão

  • As sete espécies compartilham o mesmo roteiro reprodutivo: filopatria natal, incubação sem cuidado parental e sexo definido pela temperatura.
  • A cabeçuda e a verde amadurecem tarde (20 a 35 anos); a de-Kemp e a oliva, cedo (10 a 18).
  • A de-couro faz mais ninhos por temporada (5 a 7) e soma mais ovos; a australiana faz a menor ninhada (~50).
  • Oliva e de-Kemp têm a desova em massa (arribada); as demais nidificam sozinhas.
  • No Brasil ocorrem cinco espécies, monitoradas pelo Projeto TAMAR desde 1980.

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